Minha infância – memórias de luta, fé e sobrevivência
“Em cada capítulo deste blog compartilho relatos de uma infância marcada pela simplicidade, pelo trabalho precoce, pela fé e pela luta diária para sobreviver em meio às dificuldades — onde cada degrau representava resistência e esperança.”
No Jardim Vista Alegre passamos a morar, como dito no capítulo anterior, no primeiro dia embaixo de uma cabana. Depois, os irmãos da igreja da qual participávamos, no Elisa Maria — Assembleia de Deus Ministério do Belém, dirigida pelo Pastor Lourival —, entre eles o irmão Sebastião e outros, foram ajudar meu pai a construir o barraco.
Esse barraco tinha dois cômodos e, no fundo do quintal, havia um banheiro fora de casa. Para chegar até ele, subíamos alguns degraus de uma escada de terra. Lá ficava o banheiro, com a fossa: um assoalho de madeira com um buraco no meio.
Não tínhamos chuveiro nem água encanada. A água buscávamos em uma mina, perto de um córrego. Nesse meio tempo, meu pai cavava um poço para termos água em casa, e minha mãe colocava grandes tambores e uma banheira que havíamos ganhado, onde, em época de chuva, armazenava água. Essa água era usada para lavar louça, roupa e para o banheiro. Para beber, buscávamos água no poço de uma vizinha próxima.
Em época de calor, às vezes minha mãe não estava bem, pois tinha uma ferida no pé. Nessas ocasiões, ela pagava um jovem para buscar água e encher essas vasilhas. Quando estava melhor, ela mesma ia até a bica e ficava quase o dia todo lavando roupas. As louças, quando traziam água, muitas vezes eu mesma já lavava em casa.
Com o tempo, minha mãe foi melhorando e logo começou a trabalhar fora. Meu pai também finalizou o poço, e logo já tínhamos água e luz elétrica. No início, usávamos vela e lamparina. Depois, minha mãe conseguiu puxar energia de um poste que ficava na casa da vizinha de cima, que emprestava luz para todos os barracos e para as casas da rua de baixo. Naquele tempo, a Light não cobrava energia tão caro quanto hoje. Mais tarde, quando a energia chegou oficialmente à rua de baixo, cada pessoa colocou seu próprio poste.
Minha infancia na escola
Comecei a estudar logo que chegamos, no pré. Íamos de shorts vermelho, saia e camisa branca, meia branca e conga vermelho. Na escola, sentávamos em bancos cor de abóbora e rabiscávamos mesas da mesma cor. A escola era legal, tinha muitas brincadeiras, mas eu não queria ficar lá. Chorava demais e queria ir embora, seja com minha mãe, meu pai ou com alguma pessoa que eles pediam para me levar à escola. Isso foi nos primeiros anos.
Quando eu estava com oito anos, já ia sozinha para a escola, para o mercado, padaria, açougue e outros lugares que minha mãe pedia. No primeiro ano, tive um professor cujo nome não lembro. No segundo ano, passei a faltar muito, pois minha mãe estava muito doente. Ela estava grávida e com problemas de alergias e outras coisas que nem ela entendia, que não a deixavam sair da cama.
Eu, com apenas oito anos, tinha que ajudar a cuidar da casa, da comida e dos meus irmãos. Muitas vezes não conseguia ir à escola. Deus preparou algumas pessoas que começaram a nos ajudar, mas infelizmente foi um pouco tarde, pois acabei repetindo de ano. Outro fator que contribuiu foi que a professora saiu de licença, e quando eu ia à escola havia muita troca de professores. Lembro de um episódio em que uma professora, em vez de dar aula, ficava passeando de um lado para o outro.
Já naquela época sofríamos muito bullying, eu e meus irmãos. Cheguei até a ser apedrejada. Em um desses episódios, um garoto começou a me xingar e me ameaçar de bater. Eu disse:
— “Por que você não fala isso na frente da professora?”
Quando a professora chegou, ele distorceu o que eu tinha falado, e a classe o defendeu, a ponto de a professora me bater. Fui para casa e contei à minha mãe. Quando ela melhorou, foi à escola falar com a professora, que negou tudo. No fim, acabei repetindo aquele ano.
No ano seguinte, tive uma nova professora muito boa, chamada Salete. Às vezes ela tinha uma Brasília e queria me levar para casa. Eu tinha vergonha de dizer que morava em um barraco e pedia para ela parar em uma casa abaixo da minha rua. Como é curioso: desde criança já carregamos nossas vergonhas.
Nesse novo ano, passei para o terceiro e depois para o quarto ano. Ainda sofria perseguições, mas já tinha algumas amigas, como a Luciana e a Rogéria — uma moça de 15 anos que já tinha namorado, algo comum naquele tempo. Pessoas mais velhas estudavam junto com crianças, pois muitos começavam a estudar tarde, depois dos nove ou dez anos. Isso era difícil, porque muitos “marmanjos” praticavam bullying com os menores, especialmente por ser uma escola da favela.
Lembro de um episódio em que várias pessoas saíram me perseguindo pela rua e me apedrejando. Dou graças a Deus porque nenhuma pedra me acertou. Muitas vezes eu chegava atrasada à escola e ficava perambulando pela rua para não entrar até a hora de ir embora. Às vezes ia para a casa de uma menina chamada Luciana ou de outra chamada Cláudia, lá nas pedreiras. Um dia, Cláudia me levou até lá para conhecer. Vejo nisso a mão de Deus me dando livramentos.
Certa vez, minha mãe me viu quando eu estava indo para o caminhão do mercado Cobal — veículos que eram colocados em pontos estratégicos para vender alimentos mais baratos às comunidades carentes. Ela me levou para casa, e meu pai me bateu. Eu nunca contei a eles que fugia da escola por causa do bullying. Na época, nem existia esse nome; só sabíamos que apanhávamos.
Lembro de um dia em que estava chovendo e jogaram meu irmão Moisés, com roupa branca, no meio da lama e bateram muito nele. Se não fosse a mão de Deus, ele poderia ter morrido.
Depois disso, uma família mudou para uma casa em frente à nossa, com várias meninas e um jovem mais velho. Esse jovem passou a cuidar de nós, levando e trazendo da escola a pedido da minha mãe. Com isso, conseguimos estudar melhor, pois ele era mais velho e os outros tinham medo.
Minha infância em casa: a convivência com meus pais e meus irmãos
A minha infância em casa, apesar de termos que ajudar nossos pais, para mim não era pesada, pois meus pais não eram ignorantes no quesito de nos fazer trabalhar à base de pancadas. Não éramos espancados, e sim cuidados.
Na época, levantávamos sempre muito cedo e íamos para a escola. Às vezes, meus irmãos iam trabalhar de carrinho de rolimã na feira; eles mesmos criavam seus carrinhos. Meus irmãos eram muito inteligentes. Depois, quando estávamos em casa, ajudávamos na limpeza e no cuidado com os irmãos menores. Eu era a que mais cuidava de lavar a louça, por exemplo.
Sempre fazíamos as coisas cedo para depois brincarmos, mas às vezes a gente vacilava. Esquecíamos os pequenos dormindo, e algumas vezes eles caíam da cama; ainda bem que o chão era de terra batida. Depois meu pai cimentou, e aí o cuidado teve que ser redobrado.
Às vezes ficávamos brincando e esquecíamos de cuidar da casa, e quando víamos que nossa mãe estava para chegar, corríamos para fazer o serviço. Mas nem sempre dava tempo, e acabávamos fazendo pela metade. Ela às vezes ficava um pouco brava, como em uma vez em que tentei agradá-la colocando flores nos seus bules, e ela acabou quebrando sem querer porque estava nervosa. (Eu sempre tentei comprar louças assim para dar para ela, mas nunca mais consegui.)
Nesse dia, eu mascarei o serviço colocando cobertas sem dobrar sobre as camas, e isso a deixou chateada. Mas, no geral, eu ligava o rádio em programas evangélicos e limpava toda a casa.
Na medida em que fui crescendo, fui melhorando. Era muito sofrimento para ela, que às vezes estava muito doente ou com a ferida aberta no pé. Quantas vezes, para não deixar de lavar roupa, ela colocava uma bacia sobre uma cadeira, sentava em outra, apoiava o pé em uma terceira à frente, e assim lavava a roupa à mão. Nós pegávamos água para ela, eu enxaguava e colocava no varal.
Tinha vezes em que usávamos uma banheira grande (daquelas de casa). Na época, meus pais ganhavam muitas coisas para construção, mas infelizmente acabaram dando depois que nos mudamos. Usávamos essa banheira para enxaguar roupas e colocar no varal. Às vezes também usávamos para brincar; meus pais deixavam. Teve vezes em que brincávamos nela até debaixo da chuva, com a água caindo da calha.
Enfim, quase sempre meu pai levava irmãos da igreja e amigos em casa, e um deles nos deu uma pia de lavar louça de pedra de mármore, daquelas com pedrinhas aparentes, não pintadas, eram pedras mesmo. Minha mãe, quando estava bem, sempre a deixava muito branquinha. Isso facilitou para nós lavarmos a louça, a princípio com a mangueira do poço, porque o poço já tinha dado água.
Meus irmãos, principalmente o Moisés, sempre puxavam água do poço. Deus o guardava de muitos acidentes, inclusive uma vez em que o sarrafo (madeira usada para colocar a corda no poço e puxar a água) voltou e não bateu na cabeça dele.
Com o tempo, meus pais colocaram bomba no poço e, logo depois, veio também a água da rua. Passamos a ter torneira em casa, e eu lavava a louça na pia com a torneira.
Às vezes minha mãe ia trabalhar e meu pai ia para a igreja, e quando eles não traziam mistura, eu pegava chuchu do pé que eles sempre plantavam, preparava a comida, dava banho nas crianças, dava comida e colocava todos para dormir.
Mas, quando era para eu dormir, só dormia quando minha mãe chegava. Meu pai às vezes falava:
— Vai dormir, menina.
Eu ficava acordada, às vezes chorando, porque minha mãe demorava. Eu era a mais velha e também a mais chorona.
Não coloquei aqui, mas quando eu era menor vivia sonhando com minha mãe morrendo com uma escova, como se a escova se tornasse algo que entrasse na garganta dela e ela morresse. Mal sabia eu que isso era um sinal de que ela morreria com um tubo na garganta, pois ela faleceu entubada em 2019.
Acredito que era um sonho de aviso, mas nunca contei esses sonhos para minha mãe. Creio que isso explique também por que eu chorava tanto quando ela saía e demorava, principalmente à noite, época em que ela trabalhava no período noturno.
Minha infância na igreja
Minha infância na igreja era diferente da escola. Meus pais frequentavam igrejas pentecostais, ainda não eram batizados. Eu quase não sabia louvores de cor, apenas alguns corinhos, mas adorava pedir para cantar. Uma vez, vi uma folha de um louvor caída no chão da harpa, com partitura. Eu sabia ler a letra, mas não o tom, então inventei um e cantei.
Meu pai passou vergonha certa vez. Como minha mãe estava doente, eu não conseguia pentear o cabelo, enchi-o de grampos e fui para a igreja. O Pastor Lourival me chamou para cantar, colocou uma cadeira para eu alcançar o púlpito. Quando chegamos em casa, meu pai ficou bravo e disse:
— “Essa menina só me faz passar vergonha.”
Hoje não quero julgá-lo. Ele já dorme no Senhor (in memoriam). Era o jeito deles.
Cresci indo atrás dos meus pais nas igrejas. Uma vez, minha mãe me levou com meu irmão à Igreja Brasil Para Cristo, na Pompeia, do Missionário Manoel de Mello. Ele era muito humilde, nos colocou no palco, fez perguntas sobre nossa vida, sobre meu irmão que vendia sorvete, sobre meu pai, e sobre mim, que gostava de cantar. Nos deu vários livros da igreja. Foi um dos melhores dias da nossa vida.
Na casa da minha avó também havia uma pequena igreja no quintal, com cultos aos sábados. Eu louvava a Deus lá também, inclusive o Salmo 100, que minha avó gostava muito.
Vizinhos e convivência
Tínhamos vizinhos muito bons, como Dona Cida e Dona Maria (ambas já falecidas), Dona Graça, mãe da Sônia e da Cíntia, que está viva até hoje. Meu irmão Moisés orou por ela quando estava doente, e ela foi curada.
Mas também havia vizinhos difíceis. Uma senhora nos aterrorizava, jogava pedras no barraco, envenenava nossos animais e nos xingava muito. Ela acabou falecendo. Um menino que me odiava e me xingava muito mais tarde foi nos visitar para pedir perdão.
As comidas da minha infância
Minha mãe fazia muitas comidas. Nos aniversários, preparava bolos enormes, tortas de banana, balas e balas de coco. Para o dia a dia, arroz, feijão, linguiça, peixe, frango. Fazia massa de tomate, leite de soja, bolachas de trigo abertas com garrafa de vidro.
Uma vez, meus pais ganharam um porco do meu avô. Minha mãe fez tanto torresmo que comíamos toda hora. Também fazia cocada, geladinhos e outras coisas para vender.
Essas são algumas lembranças da minha infância — algumas tristes, outras alegres. Aos onze anos, em 22 de junho de 1982, nos mudamos para Itapevi. O bairro inteiro se despediu de nós. Minha mãe ficou sentada enquanto as pessoas se despediam, e meu pai colocava as coisas no caminhão. Foram dois caminhões. Muitas coisas tivemos que doar ou acabaram quebrando.
Aqui finalizo esta parte. Nos próximos capítulos contarei sobre a pré-adolescência e como foi morar em Itapevi.

.jpeg)