Vou contar aqui algumas lembranças que me aconteceram desde a minha infância. Vou iniciar por alguns episódios que minha mãe me contava e depois por aqueles dos quais eu mesma me lembro. Um deles, inclusive, eu estava contando recentemente para minha filha.
Esses episódios me fazem perceber que, em cada detalhe, Deus estava ali me guardando e cuidando de mim.
Este primeiro episódio minha mãe me contava com frequência. Era necessário que ela trabalhasse, e ela não tinha com quem me deixar. Nesse caso, ela me deixava no berço para ir trabalhar. Detalhe: ela trabalhava na cidade, e eu ficava sozinha no barraco, na Vila Penteado, em São Paulo.
Ela fazia isso porque não tinha ninguém que cuidasse de mim e do meu irmão, e também porque havia casas de família em que ela não podia levar duas crianças. Além disso, havia a dificuldade de se locomover com duas crianças no transporte público. Ela chegou a cogitar deixar meu irmão por um tempo com minha avó, mas não deu muito certo.
Por fim, ela me deixava no berço com uma mamadeira. Naquele tempo usavam-se fraldas de pano, e ela deixava bolachas comigo. Às vezes, segundo ela, algumas amigas iam até lá, me pegavam e me levavam para a casa delas. Outras vezes, infelizmente, quando minha mãe chegava, minhas bolachas estavam misturadas com fezes, e eu ainda estava no berço. Graças a Deus, eu ainda não me levantava, pois poderia cair e me machucar. Sei que ali o anjo do Senhor me guardava.
Eu escutava minha mãe contando suas lutas e acontecimentos. Nunca me vitimizei — como se fala hoje — apenas ouvia. Mas, depois de anos, fico pensando em quanto ela sofreu. Hoje, ela não está mais aqui para que eu possa agradecer por tudo o que fez, por seus sacrifícios e dores, assim como meu pai, que também lutou para que nunca nos faltasse comida nem um teto.
Hoje é um período próximo ao Natal, e faz vinte anos que perdi meu pai. Estou triste por tudo o que está acontecendo e pela falta dos meus pais, mas sigo aqui tentando escrever mais um pouco da minha história e da história da minha família.
Voltando aos episódios: minha mãe contava que, ao chegar em casa, corria para me dar banho, me alimentar direito e cuidar da casa antes que meu pai chegasse do trabalho. Às vezes, amigas a ajudavam — principalmente uma senhora chamada Dona Luzia, que morava perto. Mas isso não acontecia sempre.
Com o tempo, graças a Deus, minha mãe conseguiu uma patroa que cuidava de mim como se eu fosse filha. Ela dizia que essa mulher me trocava e deixava fraldas em qualquer lugar, até em cima da mesa, e saía comigo pendurada de lado, passeando, como se nada tivesse acontecido.
Depois de um tempo, já um pouco maior, lembro que minha mãe começou a me levar algumas vezes ao trabalho. Lembro de uma ocasião em que estavam reformando o porão de um prédio, e eu desci até lá. Por misericórdia de Deus, não me perdi. Voltamos tarde para casa, e lembro que passamos em frente a um local onde instalavam uma porta de aço. As faíscas refletiam na luz fraca da noite, pareciam uma luz roxa, e aquilo me deu medo. Curiosamente, por muitos anos, não gostei da cor roxa.
Mais tarde, minha mãe colocou uma moça para cuidar de mim e dos meus irmãos. Essa moça era muito ruim e judiava de mim. Fingindo brincar, jogava bolas pesadas em mim com força. Um dia, em vez de me ajudar no banheiro, pegou uma cinta e começou a me bater muito. Naquele dia, por Deus, minha mãe voltou do caminho do trabalho e a encontrou me agredindo. Ela ficou muito brava, mandou a moça embora e me levou pelo bairro. Lembro que Dona Luzia e seu filho ficaram indignados com o que havia acontecido.
Depois disso, minha mãe não colocou mais ninguém em casa. Dona Luzia passou a nos ajudar, diminuindo suas diárias para ficar mais conosco. Com o tempo, nasceram meus irmãos Moisés, Raquel e Elias. Minha mãe parou de trabalhar fora e passou a fazer doces para vender. Meu pai trabalhava como jardineiro e, depois, aceitou a Jesus. Isso trouxe mais paz ao nosso lar.
Passamos a frequentar mais a igreja Assembleia de Deus, ministério do Belém. Houve muitos livramentos: atravessando avenidas, acidentes evitados, curas, quedas, perigos. Em tudo, vejo hoje a mão de Deus.
Foram muitas dores, mas também muitas bênçãos. Se eu lembrar de mais episódios, trarei aqui.
Obrigada por ler até aqui.
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Cada texto traz lembranças diferentes de um mesmo período da minha vida, escritas em momentos distintos, mas que se completam.

